12 de julho de 2013

OS MEGAEVENTOS E AS CIDADES


O anúncio de que o Brasil sediará a Copa do Mundo da Fifa, em 2014, foi feito em 30 de outubro de 2007. Não foi surpresa que o país foi candidato único e que a escolha se daria a partir de um rodízio entre confederações continentais. O evento de 2014 seria na América do Sul e o Brasil era o candidato da Confederação Sul-americana de Futebol.

Apesar da facilidade para a escolha da sede, a relação do país com a Fifa nunca foi tranquila. Durante o processo de candidatura, alguns episódios mostravam a tensão entre a entidade, o governo e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A enorme distância entre o padrão Fifa para as modernas arenas da Copa do Mundo e os precários estádios brasileiros; as dificuldades de infra-estrutura das cidades, especialmente em relação a mobilidade, capacidade dos hotéis e à comunicação; a Lei Geral da Copa, com as polêmicas sobre o uso de bebidas alcoólicas e os incentivos fiscais à Fifa e aos seus patrocinadores são exemplos.

Com a definição destas cidades pela Fifa, no fim de 2008, após intensa disputa política, a questão central sobre o evento passou a ser o andamento das obras. Atualização dos aeroportos, superação das dificuldades de mobilidade urbana e melhoria dos estádios passaram a ser acompanhados com desconfiança, ansiedade e esperança. Ao mesmo tempo que as obras eram realizadas, a importância do Brasil no cenário internacional se ampliava. O país sobrevivia às crises globais mostrando força de sua economia, a democracia se consolidava e milhões de pessoas melhoravam de vida, em um processo de desenvolvimento social importante.

A cerca de um ano da Copa do Mundo, que terá duração de um mês, não parece haver dúvida de que os estádios estarão em condições. Apesar das dúvidas em relação aos aeroportos e das obras que ficaram pelo caminho, tudo leva crer que o evento será realizado com sucesso. Contudo, duas questões merecem reflexão. Uma delas diz respeito à participação da seleção nos campos e a outra, aos legados do evento.

O futebol brasileiro, claramente, passa por um momento de transição. Os grandes jogadores apareciam de forma espontânea em um processo de aprendizagem baseado na experimentação lúdica do jogo nas ruas e nos campos de terra. Atualmente, passaram a ser “produzidos” em modernos centros de treinamento, em um processo de profissionalização que introduz nossas crianças e adolescentes muito cedo no mundo tenso do mercado, das responsabilidades, retirando deles a oportunidade de aprender brincando. Este novo futebol, mais científico e profissional, parece ter perdido sua identidade cultural e vem deixando de ocupar as melhores posições nos rankings internacionais. O risco de uma participação pouco brilhante nos campos é real.

Quanto aos legados, muito se falou sobre o impacto nas dimensões econômica, turística, aeroportuária e também na infra-estrutura esportiva. Legados importantes, porém periféricos. Não se relacionam com a natureza esportiva do evento. No lugar de se planejar transformações necessárias na cultura esportiva brasileira, o país restringiu suas preocupações às obras que, em grande parte, deveriam ser realizadas mesmo sem a Copa do Mundo. Não se planejou o legado cultural. Pouco se refletiu sobre o que deveria aprender ao sediar um evento mundial.

A história conta que os grandes eventos esportivos sempre tiveram relação com os temas que mobilizam a humanidade. Na passagem do século XIX para o século XX, expressavam o desejo de integração entre os povos e de divulgação da prática esportiva que conduziria o ser humano a civilidade, a paz e a saúde. Em meados do século passado, estes eventos internacionais serviam de propaganda ideológica, com a ideia de que sediar e vencer as disputas esportivas legitimaria os embates geopolíticos. A partir dos Jogos Olímpicos de 1984, a dimensão comercial passou a sobrepor às demais. A organização dos jogos começava a atribuir papel secundário à dimensão esportiva e sobrevalorizar o marketing, explorando uma contradição típica dos tempos modernos: ao mesmo tempo em que são direitos de todos, o esporte e o lazer viraram produtos, distanciando-se do cotidiano das pessoas como práticas sociais. Atualmente, percebe-se o esvaziamento de sentido dos eventos esportivos, a ponto de serem repudiados pelas populações de cidades candidatas à sede em países mais desenvolvidos.

Os megaeventos emocionam pela beleza das disputas esportivas, mas deixaram também lições sobre o que se deve evitar em seu processo de organização. Em 1976, o Canadá endividou-se de maneira perigosa para realizar os Jogos Olímpicos de Montreal. Barcelona aproveitou bem sua experiência, revitalizando a cidade que se valorizou muito após os Jogos de 1992. A Grécia inviabilizou suas contas públicas para sediar os Jogos de 2004, entrando numa crise que desestabilizou a Europa. Em 2008, a China tentou melhorar a imagem internacional do país ao propor um evento ecológico, que ajudaria a despoluir sua capital. A África do Sul, ao se preparar para a Copa do Mundo de 2010, construiu estádios gigantescos que estão ociosos, num enorme desperdício de dinheiro.

No Brasil, a temporada de megaeventos teve início em 2007, com os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e terá prosseguimento com a Copa das Confederações de 2013, Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos poderiam servir para aprimorar o exercício da democracia, contribuir para o reordenamento legal, político e financeiro das organizações esportivas e ao mesmo tempo induzir uma mudança de cultura, criando condições para que as pessoas se apropriassem do esporte e do lazer no seu cotidiano, mudando a relação do povo com as cidades. Ótimos legados seriam o aumento do número de praticantes de esporte e a redução do sedentarismo, investimentos poderiam ser feitos na construção de espaços públicos destinados a convivência, redefinindo o conceito de cidadania, levando a população a se sentir dona e responsável pela cidade em que vive. Ao contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas na cidade, estes eventos poderiam ter um sentido nobre.

Artigo de Daniel Marangon, professor e chefe do Departamento de Educação Física da PUC Minas, publicado na sétima edição da Revista PUC Minas.

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