O CAPITALISMO DE ESTADO À MODA CHINESA
[Estados Unidos e União Soviética] Durante décadas, travaram uma disputa pelo domínio mundial que só terminou com a queda do Muro de Berlim.
A partir de então, os Estados Unidos emergiram como líder incontestável. Nenhum outro país possuía uma economia robusta o suficiente para investir mais de um trilhão de dólares anuais em suas forças armadas.
Sem o desafio soviético, terminado o receio de outra conflagração mundial o planeta viveu apenas guerras localizadas, quase sempre monitoradas por Washington.
Assim como na Pax Romana, experimentou-se uma relativa estabilidade: um poder hegemônico sem rivais tornou-se, paradoxalmente, fator de paz.
Essa realidade, no entanto, encontra-se ameaçada pelo crescimento da China. Uma guerra mundial volta a ser centro de preocupações.
A presidência de Donald Trump expôs essa insegurança: em estilo truculento, declarou guerra a todos que julgava ameaçar os Estados Unidos, atingindo até aliados.
Trump construiu sua retórica em torno de um falso truísmo: o de que o planeta se aproveita dos Estados Unidos ao vender produtos mais baratos do que os fabricados localmente.
Mas, desde quando, oferecer bens melhores e mais acessíveis é exploração?
Se antes a China era vista apenas como fonte de mão de obra barata, hoje lidera setores estratégicos como energia solar, inteligência artificial e veículos elétricos.
O ritmo da inovação, a escala de produção e a velocidade de implementação impressionam. O país avança com fôlego que assusta até seus críticos.
O contraste entre os modelos é nítido: de um lado, uma economia de mercado marcada pelo peso dos programas sociais; de outro, um capitalismo de Estado que canaliza recursos para tornar empresas mais competitivas.
Diante desse cenário, Trump teve duas escolhas: reforçar as bases do liberalismo econômico que fizeram a prosperidade americana — governo mínimo e livre mercado — ou imitar o modelo chinês. Optou pela imitação imperfeita: participação acionária estatal em empresas, barreiras alfandegárias que oneram o consumidor, restrições a imigrantes na força de trabalho e proteção a setores locais.
Como toda cópia, a de Trump está fadada à imperfeição. Falta aos Estados Unidos a disciplina de trabalho, a obediência social e o poder de um regime autoritário que não precisa prestar contas às urnas.
Se os Estados Unidos não despertarem, o fim de sua hegemonia poderá ser simbolizado justamente por aquilo que mais negaram ao longo da história: a adoção, ainda que disfarçada, do capitalismo de Estado à moda chinesa.
Texto de Wilson Jacob.
COMPLEMENTO DE JORGE SIMEIRA JACOB:;
[No livro] "A Caminho da Guerra", de Graham Allison, professor de Harvard e referência em política internacional. O autor examina 16 episódios semelhantes nos últimos 500 anos. Em 12 deles, a disputa resultou em guerra.
A pergunta que orienta o livro é direta: Estados Unidos e China estão destinados ao mesmo desfecho [a guerra]?
Allison responde com cautela. O perigo é real e crescente, mas não inevitável. O livro demonstra como choques entre potências costumam ser alimentados por dois gatilhos psicológicos: orgulho excessivo e medo irracional.
Ambos estão presentes no cenário atual: a China se vê em ascensão firme, enquanto os EUA, acostumados desde 1945 à hegemonia global, reagem com ansiedade e desconfiança.
Em 1980, a China representava apenas 2% da economia mundial; hoje, já soma 18% e pode alcançar 30% até 2040. Para os EUA, essa mudança “sísmica” equivale a uma ameaça existencial.
Trump respondeu com tarifas e retórica belicosa, inaugurando uma guerra comercial que deixou evidente a rota de colisão.
À Caminho da Guerra não é apenas uma análise histórica, mas um alerta. Se a competição entre as duas maiores potências se limitar ao campo econômico e tecnológico, o mundo pode ganhar. Se descambar para o militar, o resultado será destrutivo para todos.


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