11 de dezembro de 2015

CHICO: ARTISTA BRASILEIRO


Lançado dez anos depois do bem sucedido "Vinícius", o documentário do mesmo diretor, Miguel Faria Jr., serve a vários propósitos. Enche de lágrimas e emoção os mais velhos, na mistura de material histórico e inédito, nostalgia e atualidade. Provoca os mais jovens ao apresentar um escritor, músico e compositor lúcido e bem humorado, disposto a revelar com sincera generosidade e abrir importantes caixas de diálogo.

O disco com a trilha sonora, que chega ás lojas em ação paralela a exibição nos cinemas, contempla os dois públicos. E consegue surpreender até quem já coleciona milhares de audições de alguns de clássicos e lados B. Mesclando artistas de vários quilates e épocas, em oito das dez faixas, o CD é mais do que um suvenir ao qual recorrer quando der uma saudade do filme, é uma das melhores coletãneas, entre as centenas que nosso maior compositor vivo já mereceu.

Já na abertura, com um tema pouco conhecido da maioria, a belíssima "Sinhá", cantada pelo próprio autor, qualquer ouvido com algum grau de sensibilidade, pode entender que é possível falar em temas como injustiça social, paixão, admiração da beleza, jogo de cintura, opressão, racismo e outras questões tão em moda e tão gritadas em atos e omissões com uma sensibilidade poética e musical única original. E, no encerramento, a autobiográfica "Paratodos", a outra faixa defendida por Chico, é aula de história do Brasil e da música popular brasileira.

Uma das declarações que ele dá no filme, dando a entender que a música péssima qualidade que está nas paradas é fruto de um país melhor e mais democrático, e que a bossa nova não teria sido o que foi se tivesse sido criada hoje, quando as elites não guiariam mais o chamado gosto popular, ganha contraponto na própria "Paratodos", em algumas cenas históricas e na escala de intérpretes mais jovens.

ELITE BRANCA

Cartola e Jackson do Pandeiro, presentes na canção, e Nelson Cavaquinho, que está numa das cenas, produziram música de altíssimo nível, sofisticada e, ao mesmo tempo, popular. E não vieram da elite branca da Zona Sul Carioca. E o sambista Péricles, que vem do grupo de pagode Exaltasamba, faz uma boa leitura da "Estação derradeira", mostra que, quando tem chance trabalha com material sofisticado do que o habitual com tranquilidade. Caso de lembrar famosos versos de Gilberto Gil, mais otimista: "O povo sabe o que quer / Mas o povo também quer o que não sabe".

Na categoria emoção, a portuguesa Carminho dá dois shows de dramaticidade lusa a serviço da MPB. Faz uma versão de "Sabiá" de dilacerar corações e divide com Milton Nascimento uma arrasadora versão de "Sobre todas as coisas", um dos maiores acertos dos muitos da dupla Edu e Chico. Mas nem só de drama vivem o filme e o disco. Adriana Calcanhotto e Mart'nália atualizam e capricham na malícia do samba "Biscate" uma das provas mais nítidas de que o Chico é um dos mais eficazes herdeiros de Noel Rosa. E a revelação Moyseis Marques, um dos mais promissores novos talentos da cena carioca, se sai bem em outro samba, "Mambembe".

Unindo técnica e sensibilidade, Mônica Salmaso não consegue superar a versão original de Simone, mas dá elegância inédita ao delicado "Mar e Lua", enquanto Laila Garin, que
recentemente viveu Elis Regina nos palcos, dá aula de como uma atriz pode revigorar um clássico, com uma leitura quase minimalista de "Uma canção desnaturada". O efeito é, ao mesmo tempo, semelhante e oposto ao da gravação de Elza Soares para "Meu guri".

Fechando o repertório, Ney Matogrosso demonstra a competência habitual ao cantar uma das mais cinematográficas obras de Chico, "As vitrines". Mas a sensação, tanto no vídeo quanto no áudio, é de que poderia ter rendido mais, por seu potencial centenas de vezes demonstrado.

Texto de kiko Ferreira, do jornal "Estado de Minas".

2 comentários:


  1. Estou a tentar visitar todos os seguidores do Peregrino E Servo, e verifiquei que eu estava a seguir sem foto, por motivo de uma acção do google, tive de voltar a seguir, com outra foto. Aproveito para deixar um fraterno abraço.
    António Jesus Batalha.

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    1. Antônio, muito obrigado pelo prestígio dado ao blog. Leonardo.

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